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Dr. Florentino Cardoso – Presidente da AMB fala ao Portal

Data: 21-10-2011 15:32 | Publicado por: Revista Saúde S/A

Ir para a listagem - Entrevista

Dr. Florentino Cardoso, presidente da AMB

Saúde S/A – Depois de um ano intenso de lutas da classe, tanto na saúde suplementar como na pública, o que pode ser comemorado no dia 18 de outubro?

Dr.º Florentino Cardoso – Certamente nós médicos, temos muito o que comemorar pelo fato de podermos ajudar as pessoas, aliviar o sofrimento. O fato de ser médico num país que possui um alto índice de analfabetismo. O fato de poder adentrar na vida das pessoas, na sua intimidade, mas certamente temos que estar bem alerta de como está se desenhando o futuro da profissão médica, o cuidado com os pacientes. Esse foco certamente permitiu para que fizéssemos críticas de alerta com os movimentos nacionais de abril, agosto e outubro, em que quer tão somente mostrar á população brasileira que os médicos brasileiros estão preocupados com o tipo de assistência que está sendo prestada não somente no SUS, mas também na saúde suplementar.

Saúde S/A – Quais são os maiores desafios dos médicos para o pleno exercício da sua profissão?

Dr.º Florentino Cardoso – As condições de trabalho certamente é um deles, pois as condições atuais que muitos médicos são submetidos nesse país ruins. Se nós levarmos em consideração, por exemplo, nas grandes urgências emergências os médicos trabalham sobrecarregados, sofrem um stress enorme. Se considerarmos as cidades de mais difícil acesso ou menores, as condições de trabalho dos médicos são péssimas, muitas vezes sem qualquer estrutura. Se analisarmos os grandes centros de operadoras de saúde a situação fica complicada, pois muitas operadoras interferem na autonomia do médico. Como exemplo é o médico que examina o seu paciente e solicita determinado exame ou procedimento e a operadora questiona, nega ou pede para mudar o procedimento. Na maioria das vezes isso acontece pura e simplesmente para reduzir os custos ou aumentar o lucro da operadora. No SUS o problema maior é que a remuneração dos profissionais é muito baixa. A remuneração dos médicos na maioria dos serviços públicos de saúde é muito baixa. A gente vê concursos públicos em capitais importantes, como no Rio de Janeiro, por exemplo, oferecendo salário de R$ 1500,00 por 20 horas semanais de trabalho. Os problemas dos médicos pela baixa remuneração, a falta de condições de trabalho, interferência das operadoras na autonomia dos médicos, o que é muito preocupante, pois isso gera reflexo na população. Nós queremos à luz do nosso trabalho, da dedicação, estudo e competência dar o melhor que nós temos aos nossos pacientes.

Saúde S/A – Recém empossado como presidente da AMB para a gestão 2011-2014, quais são as suas bandeiras e os maiores desafios a serem enfrentados pela entidade?

Dr.º Florentino Cardoso – Precisamos tentar resgatar a dignidade do profissional médico, buscando soluções para os enormes problemas vividos na saúde pública ou privada sentando à mesa com todos os atores envolvidos – donos de operadoras, gestores públicos municipais, estaduais e federal, governo, ANS, Anvisa, no sentido de juntos, tranqüilos, desarmados, propondo fazer o que é melhor para a população. Nós não queremos o que é melhor para um determinado setor. O nosso foco é buscar o melhor para a população brasileira, especialmente a mais carente, que depende do SUS. Essa população já sofre muito no cotidiano e doente sofre mais ainda, porque tem que enfrentar hospitais lotados, longas filas de espera para consultas, exames e procedimentos, o que degrada ainda mais a condição humana e nós não agüentamos mais ver a esse sofrimento.
Nessa nossa gestão o foco certamente será a formação do médico. Nós precisamos formar bem os profissionais de medicina. Nós temos percebido que existem algumas escolas de medicina que não estão formando bem os profissionais de saúde aqui no Brasil. Então o governo precisa através dos ministérios da Saúde e Educação fiscalizar de maneira adequada as escolas de medicina neste país. Nós não precisamos de quantidade e sim de qualidade então esse é o ponto principal e se eventualmente identificarmos a necessidade da formação de mais profissionais em determinadas áreas, nós somente faremos isso de maneira decente, responsável e formando bem, o que também tem uma expectativa do governo federal de tentar revalidar diplomas de médicos que se formam em outros países. Tem uma proposta do governo federal de revalidação automática para quem se formou em Cuba. Nós somos contra isso. Nós aceitamos de braços abertos que se formar em qualquer lugar do mundo, só que ele terá que fazer um processo de certificação para ver se tem compatibilização de carga horária para ver se ele teve a formação médica adequada para atender a população brasileira. Nós somos defensores de um projeto que se chama “Revalida”, que tem que ter uma prova única para todos, mas o governo anda permitindo que se faça concurso que nós questionamos se eles são realizados de maneira decente, porque eles não são abertos para nós conhecermos como são feitos esses concursos. Nós temos várias experiências de médicos que se formaram lá fora, principalmente nas escolas latinas como em Cuba, Bolívia em que a formação é muito deficitária e que certamente coloca a população sob maior risco e justamente a população que necessita de mais assistência, que é a carente.

Saúde S/A – O que pode ser feito para melhorar as condições de trabalho e remuneração dos profissionais médicos que atuam no SUS e na saúde suplementar?

Dr.º Florentino Cardoso – A conscientização da população, que é o que nós temos feito. Estamos mostrando à sociedade a realidade. Não queremos aumentar ou diminuir nada, apenas mostrar o que acontece com os médicos porque nós entendemos que num país como o nosso somente a pressão social, da população vai mostrar aos gestores e donos de operadoras de planos de saúde o cenário que vivemos hoje buscando mudanças. O SUS certamente muda com mais financiamento e melhor gestão e o privado certamente muda através da valorização do trabalho médico.

Saúde S/A – Recentemente o vice-presidente do CFM citou o risco da falta de médicos a médio e longo prazo no país, devido à dificuldade para a formação destes profissionais no mesmo ritmo do crescimento da demanda. Como o senhor vê este problema e quais medidas podem ser tomadas para reverter esse quadro?

Dr.º Florentino Cardoso – O governo brasileiro vive dizendo que precisa de mais médicos, mas acredito que a quantidade não é importante. Vamos pegar cidades como Vitória no Espírito Santo, São Paulo e Rio de Janeiro que tem aí um médico para cada 300 habitantes. Nós temos uma população totalmente assistida nessas cidades? Não. Nós encontramos nestas capitais corredores de hospitais superlotados, longas filas de espera, então não é a quantidade, mas sim a qualidade que importa, assim como uma distribuição adequada dos profissionais médicos no Brasil. Como é que você vai ter um médico numa pequena cidade no interior do Ceará, por exemplo, se a cidade não tem nenhuma infraestrutura, o médico não tem nenhum suporte e o salário é precarizado, pois muitas vezes nem vínculo empregatício formal ele tem. Ele tem apenas a expectativa de receber um determinado salário, que muitas vezes atrasa e ele nem recebe esse salário inteiro. O que nós queremos é a discussão em conjunto para que se crie uma maneira de se fixar o médico em determinadas regiões oferecendo qualidade de vida, para que ele não possa apenas oferecer uma medicina de qualidade, mas também possa se atualizar e ter perspectivas de migrar depois de um determinado tempo uma cidade de melhor infraestrutura, como ocorre hoje no poder judiciário, por exemplo, que tem as instâncias e o profissional vão galgando novos locais de trabalho.

Saúde S/A – Com uma vida inteira dedicada à medicina, qual a sua mensagem para os estudantes e jovens que sonham em exercer a profissão?

Dr.º Florentino Cardoso – Aos estudantes de medicina e médicos jovens eu quero parabenizar a todos pela escolha da profissão e quero dizer que ser médico é uma escolha extremamente nobre. Saiba cuidar bem do que é ser médico. Faça todo o esforço para estudar continuadamente, trabalhar com dignidade e jamais esquecer que o mais importante na profissão dele é o seu paciente. Tudo deve ser feito em prol do seu paciente.

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